A cidade que Hitler não podia vencer (e o que isso custou)
A Batalha de Stalingrado foi o maior e mais sangrento embate da Segunda Guerra Mundial, um ponto de virada decisivo que enterrou o mito da invencibilidade alemã. Lá, em meio a escombros, inverno extremo e milhares de corpos, o Exército Vermelho impôs um limite histórico à Alemanha nazista.

Por que Stalingrado começou?
A batalha não foi um acidente, mas o resultado de uma estratégia de Hitler que virou obsessão. Após o fracasso em tomar Moscou em 1941, o plano alemão mudou: o objetivo passou a ser o sudeste da URSS, áreas ricas em petróleo e recursos.
Stalingrado aparecia como um alvo óbvio: cidade industrial, porta de acesso ao Volga e, acima de tudo, um nome que desafiava o próprio Stalin. Tomar a cidade que levava o nome do líder soviético tinha um peso simbólico tão forte quanto o estratégico.

As quatro fases da batalha
A Batalha de Stalingrado é costumada dividir em quatro grandes fases:
Defensiva soviética e ofensiva alemã (julho–novembro de 1942)
Contra‑ofensiva soviética e cerco do 6º Exército (novembro–dezembro de 1942)
Tentativa de rompimento do cerco (dezembro de 1942–janeiro de 1943)
Rendimento alemão e fim da batalha (janeiro–fevereiro de 1943)
Cada etapa explica como a Alemanha passou de atacante dominante a exército encurralado, sem saída.

O inferno urbano: bombardeio e combate casa a casa
Em 23 de agosto de 1942, a Luftwaffe abriu o cerco aéreo. Mais de mil toneladas de bombas caíram em Stalingrado, destruindo prédios, queimando ruas e matando cerca de 40 mil civis. A cidade virou um cenário de ruínas, onde o cheiro de queimado se misturava com o medo.
O 6º Exército, sob o comando do general Friedrich Paulus, avançou em 13 de setembro, entrando em combate urbano caótico. O que antes era Blitzkrieg no campo virou guerra de corredor, de casa em casa, de porão em porão.
Soldados alemães descobriram que matar em prédios sem janelas era muito diferente de vencer em campos abertos. Tanques e artilharia emperraram entre montes de escombros de oito metros, virando alvos fáceis para francotiradores e granadas soviéticas.

A ordem 227 e o papel dos civis
Stalin, que não autorizou a retirada, assinou a ordem nº 227: “Não daremos um passo atrás!”.
O recuo não autorizado passou a ser punido com execução sumária. Desertores e comandantes displicentes foram encurralados entre o dever e a morte.
Civis, mulheres e crianças não foram evacuados em massa. Muitos ficaram para cavar trincheiras, empilhar sacos de areia e ajudar a defender a cidade. A expectativa de vida de um soldado recém‑chegado era de menos de 24 horas, e a dos oficiais, cerca de três dias.

Fábricas, pontos lendários e francotiradores
O combate urbano transformou fábricas em fortalezas. Alguns pontos viraram lendas:
Mamayev Kurgan: uma colina dominante que mudou de mãos dezenas de vezes. Em um único contra‑ataque, a 13ª Divisão de Guardas perdeu cerca de 10 mil homens.
A Casa de Pavlov: um bloco de apartamentos que virou um forte, com minas, metralhadoras e passagens por porões. O sargento Yakov Pavlov e seu pequeno grupo resistiram a dois meses de ataques.
O silo de grãos (“Grain‑Silo”): combate tão próximo que os soldados ouviam o inimigo respirar. Corpos de dezenas de soldados foram encontrados em um espaço pequeno.
Francotiradores soviéticos, como Vasily Zaitsev, viraram símbolos de resistência. Ele era responsável por mais de 242 mortes confirmadas, usando um Mosin‑Nagant com mira telescópica.

A Operação Urano: o cerco que quebrou o 6º Exército
Enquanto o 6º Exército suava em Stalingrado, Stalin, Zhukov e Vasilevsky preparavam a Operação Urano. O plano era simples na teoria, brutal na prática:
Atacar os flancos do Grupo de Exércitos Sul, defendidos por romenos, italianos e húngaros, com equipamento inferior e linhas esticadas.
Fechar uma pinça ao norte e ao sul de Stalingrado, cercando o 6º Exército inteiro.
Em 19 de novembro de 1942, o golpe veio.
Forças soviéticas massivas, com três exércitos, 18 divisões de infantaria, brigadas de tanques e unidades antitanque, atacaram os romenos. As linhas inimigas se quebraram em poucos dias.
Em 23 de novembro, as forças de norte e sul se encontraram em Kalach, fechando o bolsão. O 6º Exército, com cerca de 250 mil a 300 mil homens, ficou completamente cercado. Dentro do anel, havia ainda civis, prisioneiros e aliados, todos presos na mesma armadilha.
O inverno russo, a ponte aérea e o fim da resistência
A Luftwaffe, comandada por Hermann Göring, prometeu reabastecer o 6º Exército por ar.
Göring garantiu que seria possível enviar 800 toneladas de suprimentos por dia. Na prática, o máximo foi de 97 toneladas.
Agora, dois inimigos se aliaram para destruir os alemães:
Fome e doença: alimentos acabaram rapidamente. Feridos ficaram sem remédios, tanques sem combustível.
Inverno extremo: temperaturas abaixo de –30°C congelaram solos, rios e esperanças.
A Luftwaffe perdeu 488 aeronaves e 1000 tripulantes apenas na tentativa de reforço. O resultado foi o “esmagamento por fome” do 6º Exército, com milhares de soldados morrendo de frio e exaustão.
O que tangenciou a rendição e como a batalha acabou
Hitler recusou qualquer retirada. Manstein, comandante do Grupo de Exércitos do Don, tentou romper o cerco com a Operação Saturno, mas nunca chegou a tocar o perímetro de verdade.
Paulus, diante de cidades e quartéis destruídos, feridos sem remédios e tanques sem combustível, pediu a autorização para se render.
Hitler respondeu que capitulação era impossível e que o 6º Exército deveria cumprir seu “dever histórico” até o fim.
Em 30 de janeiro de 1943, Hitler promoveu Paulus a marechal de campo, algo simbólico: nenhum marechal de campo alemão havia se rendido antes.
No dia seguinte, 31 de janeiro, diante da realidade irreversível, Paulus capitulou.
Em 2 de fevereiro de 1943, o último grupamento de resistência cessou fogo.
A batalha de Stalingrado havia terminado.

Entendendo os números em uma tabela compacta
| Aspecto | Dado principal |
|---|---|
| Mortes totais | Cerca de 750 mil entre soviéticos e alemães |
| Prisioneiros alemães | Cerca de 91 mil capturados, dos quais apenas 5 mil sobreviveram |
A batalha foi o ponto de virada do front oriental.
O Exército Vermelho, após anos de recuo, passou a liderar a guerra em direção a Berlim.
A moral de Hitler foi quebrada.
Seu 6º Exército foi aniquilado, e a Alemanha nunca mais voltou a dominar o leste.
Legado, cinema e impacto cultural
Stalingrado virou símbolo da resistência total, do sacrifício extremo e da guerra total.
A cidade foi reconstruída e hoje se chama Volgogrado, mas o nome “Stalingrado” ainda vibra na história.
Grandes filmes e livros vêm atestando a importância da batalha, como a obra “Stalingrad” de Antony Beevor, que desperta o interesse por um episódio que mudou o destino da Segunda Guerra Mundial — e, por consequência, o mundo.

Batalha de Stalingrado
Quando aconteceu a Batalha de Stalingrado?
A Batalha de Stalingrado ocorreu entre 17 de julho de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, no fronte oriental, na cidade de Stalingrado (atual Volgogrado), na União Soviética.Quem venceu a Batalha de Stalingrado?
A União Soviética venceu a batalha. O Exército Vermelho conseguiu cercar, destruir e capturar o 6º Exército alemão, marcando o ponto de virada decisivo da guerra contra a Alemanha nazista.Quantas pessoas morreram na Batalha de Stalingrado?
Estima‑se que cerca de 750 mil a 2 milhões de pessoas morreram, incluindo soldados alemães, soviéticos e civis. É considerada a batalha mais sangrenta da história, com números que variam conforme a fonte histórica.Por que a Batalha de Stalingrado foi tão importante?
Stalingrado foi o ponto em que a Alemanha perdeu a iniciativa estratégica no fronte oriental. A derrota do 6º Exército impediu o avanço nazista para o Cáucaso e o petróleo, e a partir dali o Exército Vermelho passou a empurrar a Wehrmacht de volta até Berlim.Quem comandava o exército alemão em Stalingrado?
O 6º Exército alemão foi comandado pelo general Friedrich Paulus. Ele foi promovido a marechal de campo por Hitler no final da batalha, mas acabou se rendendo às forças soviéticas em 31 de janeiro de 1943.O que foi a Operação Urano em Stalingrado?
A Operação Urano foi o plano de contra‑ofensiva soviética lançado em 19 de novembro de 1942, que atacou os flancos do Grupo de Exércitos Sul alemão, defendidos por unidades romenas, e fechou uma pinça ao redor do 6º Exército, isolando‑o dentro de Stalingrado.O que aconteceu com os soldados alemães após a batalha?
Cerca de 91 mil soldados alemães foram capturados. Muitos morreram em campos de prisioneiros soviéticos por fome, frio e doenças. Somente cerca de 5 mil prisioneiros retornaram à Alemanha ao final da guerra.Por que Hitler não autorizou a retirada do 6º Exército?
Hitler acreditava que a perda de Stalingrado seria um golpe político e simbólico devastador. Além disso, ele confiou na promessa de Hermann Göring de que a Luftwaffe poderia reabastecer o 6º Exército por ar — o que, na prática, falhou completamente.O que foi a ordem nº 227 de Stalin?
A ordem nº 227, “Não daremos um passo atrás!”, foi emitida por Stalin em 1942 para proibir recuos não autorizados e endurecer a disciplina no fronte. Desertores e comandantes que ordenassem retirada sem permissão poderiam ser punidos com execução imediata, tornando a defesa de Stalingrado quase suicida.Por que a batalha é considerada a mais brutal da história?
A combinação de combate urbano desesperado, bombardeios massivos, inverno extremo, fome, ** doenças** e milhões de mortos faz de Stalingrado um dos episódios de guerra mais brutais já registrados. O cenário de ruínas, tanques emperrados entre destroços e corpos em cada quarteirão reforça essa imagem de guerra total e absoluto sacrifício.
Fontes e Referência

Joseli Lourenço
Pesquisadora independente de história e tecnologia militar, dedicada a documentar os marcos e as inovações que transformaram os campos de batalha.
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