CVN-78: O Porta-Aviões de US$ 13 Bilhões Que Mudou a Guerra Naval
Treze bilhões de dólares. Cinquenta anos de vida útil. Catapultas eletromagnéticas. O USS Gerald R. Ford não é apenas o maior porta-aviões já construído, é a materialização da aposta americana em domínio naval absoluto até 2070. Com tecnologias que pareciam ficção há uma década e problemas que custaram bilhões extras, este gigante de 100 mil toneladas representa tanto o futuro da guerra naval quanto os desafios de inovar em escala titanesca.

Quando a Obsolescência Exige Revolução
A Marinha dos Estados Unidos enfrentava um problema caro no início dos anos 2000.
Seus porta-aviões nucleares da classe Nimitz, em serviço desde 1975, ainda eram funcionais. Mas o mundo mudou. China expandindo marinha. Rússia modernizando frota. Mísseis hipersônicos tornando oceanos menores.
O USS Enterprise (CVN-65), primeiro porta-aviões nuclear da história, estava obsoleto após 51 anos de serviço. Era hora de substituí-lo com algo revolucionário.
Não bastava construir outro Nimitz. Era necessário criar uma plataforma que sustentasse a supremacia naval americana pelos próximos 50 anos, integrando tecnologias que ainda não existiam plenamente. Catapultas eletromagnéticas no lugar de vapor. Reatores mais potentes. Sistemas integrados. Tripulação reduzida.
O USS Gerald R. Ford (CVN-78) nasceu dessa necessidade. Primeiro de sua classe, comissionado em 2017, ele representa US$ 13,3 bilhões investidos na maior revolução tecnológica em porta-aviões desde a propulsão nuclear nos anos 1960.

O Que Torna o Ford Especial
O Ford é um porta-aviões nuclear de frota, o tipo mais poderoso de navio de guerra existente.
Sua missão principal? Projeção de poder global. Ele funciona como uma base aérea móvel, capaz de lançar até 220 sortidas aéreas por dia teoricamente (operacionalmente 110-150). Lidera um Carrier Strike Group completo com destróieres, submarinos e ala aérea de 75 aeronaves.
Dimensões impressionantes:
- 333 metros de comprimento (três campos de futebol)
- 100 mil toneladas de deslocamento
- Convés de voo de 4,5 acres
Mas tamanho não é tudo. O diferencial está na geração de energia: 600 megawatts de eletricidade, três vezes mais que um Nimitz. Energia suficiente para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes. Ou, no futuro, alimentar railguns e lasers de defesa.
O papel no campo de batalha é claro: estabelecer superioridade aérea em qualquer oceano do planeta, sustentar operações ofensivas prolongadas e garantir que adversários pensem duas vezes antes de desafiar interesses americanos no mar.
Desenvolvimento e História: Doze Anos de Inovação (e Atrasos)
2005: Northrop Grumman recebe contrato inicial de US$ 2,7 bilhões. A primeira placa de aço é cortada em agosto. Quinze toneladas de metal que se transformariam no maior porta-aviões do mundo.
2008: Newport News Shipbuilding assume com contrato de US$ 5,1 bilhões.
2009-2013: Construção em módulos. Cerca de 500 blocos distintos montados como gigantesco Lego naval. Quilha assentada, casco finalizado, proa instalada.
Outubro de 2013: Lançamento. O Ford toca a água pela primeira vez, mas está longe de operacional.
2015-2017: Atrasos. Problemas com EMALS (catapultas eletromagnéticas). Elevadores de munição travando. O que deveria ser entregue em 2015 só fica pronto em maio de 2017.
22 de julho de 2017: Comissionamento oficial. Finalmente em serviço, mas ainda em fase de testes intensivos.
Outubro de 2022: Primeiro desdobramento operacional real. Atlântico Norte, Mediterrâneo, Mar do Norte. 239 dias no mar. Missão estendida por 76 dias extras devido ao conflito Israel-Hamas, fornecendo cobertura aérea defensiva.
Outubro de 2025: Segundo desdobramento, dessa vez no Caribe e Atlântico Ocidental, focado em operações contra narcotráfico sob comando do SOUTHCOM.
Por que foi criado?
Três razões principais:
- Substituir o Enterprise, em serviço desde 1961
- Modernizar tecnologia de catapultas a vapor ultrapassadas
- Responder a ameaças emergentes: mísseis anti-navio chineses (DF-21D “carrier killer”), sistemas A2/AD russos, necessidade de maior eficiência em conflitos prolongados
O que ele substitui?
Diretamente, o USS Enterprise (CVN-65). Indiretamente, eventualmente substituirá toda a classe Nimitz conforme mais unidades Ford entrarem em serviço.
Empresas envolvidas:
- Huntington Ingalls Industries (construtor principal)
- General Electric (reatores nucleares, US$ 928 milhões)
- Raytheon Technologies (radar DBR)
- Lockheed Martin (integração de sistemas)
- Mais de 500 fornecedores para componentes modulares
Design e Construção: Engenharia Modular e Furtividade Relativa
Materiais: Aço naval de alta resistência (especificação mil-s-11356), revestimentos anti-radar, estrutura compartimentalizada.
O Ford não tem blindagem pesada tradicional. A proteção funciona em camadas:
1. Distância → Opera longe da costa 2. Velocidade → 30+ nós permitem evasão 3. Defesa ativa → Mísseis, canhões, guerra eletrônica 4. Compartimentação → Contenção de danos por zonas isoladas
Inovações estruturais:
Ilha relocada: A superestrutura (torre de comando) está posicionada 50 metros mais à ré que nos Nimitz. Isso maximiza espaço no convés de voo, melhora fluxo de aeronaves e reduz turbulência durante pousos.
Construção modular: 500 blocos pré-fabricados. Cada módulo testado separadamente antes da integração. Isso acelerou construção (em teoria) e permitirá que CVN-79 e posteriores sejam finalizados em 3-4 anos versus 12 do Ford.
Furtividade limitada: Facetas no casco e superestruturas reduzem assinatura de radar, mas um porta-aviões de 100 mil toneladas nunca será “invisível”. Revestimentos especiais diminuem detecção térmica e eletromagnética.

Armamentos: Defesa em Camadas, Não Ataque Direto
O Ford não é um navio de combate direto. Seu armamento foca em autodefesa enquanto a ala aérea faz o trabalho pesado.
Sistema de defesa em profundidade:
Longo alcance (até 500 km):
- Ala aérea completa com 75 aeronaves (F-35C, F/A-18E/F)
- Função: Interceptação, superioridade aérea
Médio alcance (~130 km):
- RIM-162 ESSM: 2 lançadores com 96 mísseis
- Função: Defesa aérea contra mísseis e aviões
Curto alcance (~15 km):
- RIM-116 RAM: 4 lançadores
- Função: Defesa de ponto contra ameaças rápidas
Proximidade (~3 km):
- Mk-15 CIWS Phalanx: 3 sistemas
- Função: Última linha contra mísseis
- Canhões Mk-38 25mm: 4 unidades para defesa assimétrica
Contramedidas eletrônicas:
- SLQ-32(V)4: Detecta radares inimigos e emite sinais de engano
- SQL-25A Nixie: Sistema rebocado que engana torpedos acústicos
A verdadeira força ofensiva está na Carrier Air Wing 8, com caças F-35C (furtivos), F/A-18E/F Super Hornet, EA-18G Growler (guerra eletrônica), E-2D Hawkeye (alerta antecipado) e helicópteros MH-60R/S (anti-submarino).
Tecnologia e Sistemas: O Cérebro Digital de 600 MW
Aqui está onde o Ford realmente brilha.
EMALS (Electromagnetic Aircraft Launch System):
Substitui catapultas a vapor por eletromagnéticas. 90% de eficiência versus míseros 5% do vapor. Pode lançar desde drones leves (menos de 1 tonelada) até F-35C pesados (28 toneladas) com o mesmo sistema. Gera menos calor, menos estresse estrutural nas aeronaves.
Problema? Confiabilidade inicial terrível. Projetado para 4.166 lançamentos entre falhas, conseguia apenas 181 nos primeiros testes.
AAG (Advanced Arresting Gear):
Sistema de frenagem eletromecânico para pousos. Mais suave que cabos hidráulicos tradicionais, reduz desgaste nos aviões.
Reatores A1B:
Dois reatores nucleares de nova geração, 50% menos componentes que A4W dos Nimitz. 700 MW de potência térmica convertidos em propulsão e eletricidade. Autonomia de 25 anos sem reabastecimento nuclear.
Radar DBR (Dual Band Radar):
Sistema Raytheon que integra dois radares em um:
- SPY-4 VSR: Busca volumétrica de longo alcance
- SPY-3 MFR: Rastreamento preciso e direcionamento de alvos
Substitui múltiplos radares separados dos Nimitz, economizando peso, espaço e tripulação.
Redes integradas:
- IWS (Integrated Warfare System): Combate centralizado
- CEC (Cooperative Engagement Capability): Compartilha dados com toda a frota aliada
- Enlace Tipo 11/16/22: Comunicação OTAN padrão
Automação avançada:
Gerenciamento de energia zonal automático. Controle de tráfego aéreo com IA assistiva (decisão final humana). Sistemas de propulsão monitorados por sensores inteligentes.
Resultado? Tripulação de 4.297 versus 4.500+ do Nimitz, economia de 203 pessoas sem perda de capacidade.

Desempenho: O Que os Números Realmente Significam
Velocidade máxima: 30+ nós (55+ km/h)
Isso não parece muito, mas para 100 mil toneladas é impressionante. Operacionalmente, cruza a 20-25 nós para economia, podendo acelerar quando necessário.
Alcance: Ilimitado
Propulsão nuclear significa que o único limite é a comida da tripulação e manutenção. Reatores funcionam ~25 anos sem recarga.
Taxa de lançamento teórica: 220 sortidas aéreas/dia
Na prática? 110-150 diárias, ainda assim superior aos Nimitz (140 teórico, 100-120 prático).
Geração elétrica: 600 MW
Para comparação:
- Nimitz: ~200 MW
- Cidade de 200 mil habitantes: ~500-600 MW
Essa energia extra foi pensada para futuro: railguns eletromagnéticos (necessitam 25 MW por disparo) e lasers de defesa (100+ kW contínuos).
Capacidade de combustível de aviação: Classificada, mas estimada em ~3 milhões de galões
Munição armazenada: Classificada, mas superior a Nimitz devido a elevadores mais eficientes
Ficha Técnica
Identificação:
- País de origem: Estados Unidos
- Fabricante: Huntington Ingalls Industries (Newport News)
- Ano de introdução: 2017
Dimensões e Peso:
- Deslocamento: 100.000 toneladas
- Comprimento: 333 metros
- Boca (largura): 78 metros (convés de voo)
Propulsão e Velocidade:
- Propulsão: 2 reatores nucleares A1B
- Potência: 700 MW térmicos → 600 MW elétricos
- Velocidade: 30+ nós (55+ km/h)
Capacidades Operacionais:
- Alcance: Ilimitado (propulsão nuclear)
- Tripulação: 2.600 (navio) + 1.697 (ala aérea) = 4.297
- Aeronaves: 75 operacionais (capacidade até 90)
Armamento e Sensores:
- Defesa: ESSM, RAM, CIWS Phalanx, canhões 25mm
- Sensores: Radar DBR (SPY-3/4), SLQ-32(V)4
- Custo unitário: US$ 13,3 bilhões
Vida Útil:
- Projetada: 50+ anos (até ~2070)
Vantagens e Pontos Fortes: Por Que Ele É Temido
1. Eficiência energética brutal
EMALS consome 90% menos energia que catapultas a vapor. Isso libera energia para outros sistemas e reduz custos operacionais a longo prazo.
2. Versatilidade de lançamento
Pode lançar desde micro-drones até caças pesados sem ajustes complexos. Isso abre portas para integração futura de UCAVs (drones de combate) de tamanhos variados.
3. Autonomia operacional
25 anos sem reabastecimento nuclear. Pode sustentar operações em teatros remotos (Indo-Pacífico, Ártico) por meses sem retornar a base.
4. Potência elétrica preparada para o futuro
600 MW permitem integração de armas energéticas: railguns, lasers, sistemas de guerra eletrônica avançados.
5. Tripulação reduzida
203 menos marinheiros que Nimitz sem perda de capacidade significa menores custos de treinamento, alojamento e logística.
6. Design modular acelerado
CVN-79 (John F. Kennedy) e subsequentes serão construídos em 3-4 anos versus 12 do primeiro, reduzindo custos em ~10-15%.
Onde ele se destaca:
- Operações oceânicas prolongadas longe de bases terrestres
- Cenários de negação de acesso (A2/AD) onde bases aéreas terrestres são ameaçadas
- Projeção de poder em múltiplos teatros simultaneamente (Mediterrâneo + Indo-Pacífico)
Limitações e Críticas: O Preço da Inovação
Custo astronômico:
- CVN-78: US$ 13,3 bilhões (27% acima do estimado)
- Programa total (4 navios): US$ 40+ bilhões
- Comparação: CVN-68 Nimitz custou ~US$ 4,5 bilhões (ajustado para inflação, ~US$ 8-9 bilhões hoje)
Problemas de confiabilidade persistentes:
Sistema EMALS:
- Problema: Falhava após 181 lançamentos (requisito: 4.166)
- Status: Melhorias contínuas, ainda abaixo do esperado
Sistema AAG:
- Problema: Confiabilidade abaixo de especificação
- Status: Em correção constante
Elevadores AWE:
- Problema: Apenas parcialmente operacionais em 2017-2019
- Status: Corrigido após atrasos significativos
Esses problemas atrasaram certificação completa e limitaram operações iniciais.
Manutenção complexa:
Sistemas novos exigem técnicos altamente especializados. Peças de reposição são caras e escassas (ainda não há economia de escala).
Tripulação reduzida = risco:
Automação é ótima quando funciona. Falhas sistêmicas podem sobrecarregar tripulação menor, dificultando resposta a emergências.
Capacidade de aeronaves reduzida:
75 operacionais versus 90 do Nimitz. Justificativa oficial: maior eficiência por sortida. Críticos apontam que menos aviões = menos redundância em combate intenso.
Críticas de especialistas:
Donald Trump (quando presidente) chegou a questionar publicamente o EMALS, sugerindo voltar a catapultas a vapor. Especialistas navais debatem se a inovação “all-in” valeu o risco versus abordagem incremental.

Comparação: Ford vs. Concorrentes
Concorrente 1: USS Nimitz (CVN-68) — Classe Nimitz (EUA)
Comparação de capacidades básicas:
- Deslocamento: Ford 100.000t vs Nimitz 100.000t (empate)
- Propulsão: Ford reatores A1B vs Nimitz reatores A4W
- Potência elétrica: Ford 600 MW vs Nimitz ~200 MW (Ford vence)
Sistemas operacionais:
- Catapultas: Ford EMALS (4) vs Nimitz Vapor (4)
- Tripulação: Ford 4.297 vs Nimitz 4.500+ (Ford mais eficiente)
- Aeronaves: Ford 75 vs Nimitz 90 (Nimitz vence)
Custo e confiabilidade:
- Custo: Ford US$ 13,3B vs Nimitz ~US$ 9B ajustado (Nimitz vence)
- Confiabilidade: Ford sistemas novos com bugs vs Nimitz comprovada em 50 anos (Nimitz vence)
Vantagem Ford: Eficiência energética (EMALS 90% vs vapor 5%), flexibilidade futura, potência elétrica tripla.
Vantagem Nimitz: Confiabilidade absoluta, sistemas testados em dezenas de conflitos, operação mais simples.
Veredito: Ford é superior tecnicamente, mas Nimitz ainda é mais confiável operacionalmente (por enquanto).
Concorrente 2: HMS Queen Elizabeth (R08) — Classe Queen Elizabeth (Reino Unido)
Comparação de tamanho e propulsão:
- Deslocamento: Ford 100.000t vs Queen Elizabeth 65.600t (Ford vence)
- Propulsão: Ford Nuclear vs Queen Elizabeth Convencional (turbinas a gás + diesel)
- Velocidade: Ford 30+ nós vs Queen Elizabeth 25 nós (Ford vence)
Capacidades operacionais:
- Autonomia: Ford ~25 anos vs Queen Elizabeth 10.000 milhas náuticas (Ford vence)
- Catapultas: Ford EMALS vs Queen Elizabeth Nenhuma (rampa V/STOL)
- Aeronaves: Ford 75 vs Queen Elizabeth 40-70 F-35B STOVL (Ford vence)
Aspectos práticos:
- Tripulação: Ford 4.297 vs Queen Elizabeth 1.600 (Queen Elizabeth vence)
- Custo: Ford US$ 13,3B vs Queen Elizabeth ~US$ 8B (Queen Elizabeth vence)
- Operação: Ford Nuclear complexa vs Queen Elizabeth Convencional conhecida
Vantagem Ford: Alcance ilimitado, maior ala aérea, lançamento CATOBAR (permite aeronaves mais pesadas e com mais combustível).
Vantagem Queen Elizabeth: Menor custo, tripulação muito menor (1.600 vs 4.297), operação convencional conhecida, acesso a mais portos.
Veredito: Ford domina em oceano aberto e operações prolongadas. Queen Elizabeth é melhor para teatros regionais europeus e custos controlados.
Concorrente 3: Liaoning (16) / Shandong (17) — Classe Kuznetsov Modificada / Type 001A (China)
Comparação de capacidades básicas:
- Deslocamento: Ford 100.000t vs Liaoning/Shandong 60.000-70.000t (Ford vence)
- Propulsão: Ford Nuclear vs China Convencional (caldeiras a óleo)
- Velocidade: Ford 30+ nós vs China 29-31 nós (empate técnico)
Sistemas operacionais:
- Autonomia: Ford Ilimitada vs China ~7.000 milhas náuticas (Ford vence)
- Catapultas: Ford EMALS vs China Nenhuma (rampa ski-jump)
- Aeronaves: Ford 75 vs China 36-44 J-15 (Ford vence)
Aspectos táticos:
- Tripulação: Ford 4.297 vs China ~2.000 (China mais eficiente)
- Defesa aérea: Ford ESSM (~130 km) vs China HHQ-10 (~10 km) (Ford vence)
- Custo: Ford US$ 13,3B vs China ~US$ 3-4B (China vence)
Vantagem Ford: Tecnologia superior, autonomia ilimitada, maior ala aérea, sistemas integrados avançados.
Vantagem Liaoning/Shandong: Menor custo (~US$ 3-4 bilhões), tripulação menor, suficiente para defesa regional no Mar do Sul da China.
Veredito: Ford é superior em todos os aspectos técnicos, mas China está focando em quantidade (Fujian com EMALS já em testes + 2-3 planejados). Estratégia é saturar Indo-Pacífico com múltiplos porta-aviões versus qualidade individual.

Uso em Conflitos: Primeiro Sangue Operacional
Primeiro desdobramento operacional (outubro 2022 – janeiro 2024):
Duração: 239 dias contínuos no mar
Rota:
- Partida: Naval Station Norfolk, Virginia
- Atlântico Norte
- Mediterrâneo (portos em Croácia, Grécia, Itália, Turquia)
- Mar do Norte (Noruega, Suécia, Finlândia) — região de tensão com Rússia
Operações executadas:
- Exercícios multinacionais OTAN: Interoperabilidade com Alemanha, Canadá, Dinamarca, Espanha. Treinamento de defesa coletiva no contexto pós-invasão russa da Ucrânia.
- Extensão de missão (76 dias extras): Conflito Israel-Hamas eclodiu em outubro de 2023. Ford foi realocado para Mediterrâneo Oriental fornecendo cobertura aérea defensiva sem envolvimento direto em combate.
- Demonstração de força: Presença americana visível em região volátil, dissuadindo escalada regional.
Composição do Carrier Strike Group:
- USS Gerald R. Ford (CVN-78)
- Carrier Air Wing 8 (CVW-8)
- Destróieres: USS Bainbridge (DDG-96), USS Mahan (DDG-72), USS Winston Churchill (DDG-81)
- Submarinos (classificados)
Segundo desdobramento (outubro 2025 – presente):
Área de operação: Caribe e Atlântico Ocidental (SOUTHCOM)
Missão: Operações contra narcotráfico e crime transnacional organizado. Travessia do Estreito de Gibraltar em 4 de novembro de 2025.
Detalhes operacionais: Classificados, mas inclui vigilância aérea, interceptação de embarcações suspeitas (via ala aérea) e apoio a forças aliadas latino-americanas.

Custo e Produção: Investimento Multibilionário
Custos detalhados do programa:
CVN-78 (Ford): US$ 13,3 bilhões Pesquisa e Desenvolvimento: ~US$ 3 bilhões adicionais CVN-79 (John F. Kennedy): US$ 13,2 bilhões
CVN-80 (Enterprise): US$ 14,2 bilhões estimado Programa total (4 navios): US$ 40+ bilhões combinados
Tempo de construção:
- CVN-78: 12 anos completos (2005-2017)
- CVN-79: ~7 anos projetados (2015-2027 previsto)
- Futuros navios: 3-4 anos esperados (otimização modular)
Quantidade em operação:
- Ativo agora: 1 unidade (CVN-78)
- Em testes marítimos: 1 unidade (CVN-79, desde janeiro 2026)
- Em construção: 1 unidade (CVN-80)
Navios planejados adicionais:
- CVN-81 (Doris Miller)
- CVN-82 (William J. Clinton)
- CVN-83+ (futuro)
Total planejado: Até 10 unidades classe Ford
Países operadores:
Exclusivo: Estados Unidos
Nenhuma exportação planejada. Tecnologia classificada, custo proibitivo (quem pagaria US$ 13 bilhões + operação anual de ~US$ 700 milhões?), e EUA não compartilha propulsão nuclear naval.
Justificativa dos custos:
Desenvolvimento de EMALS, AAG, reatores A1B, radar DBR. Custos não-recorrentes de engenharia concentrados no CVN-78. Navios subsequentes esperados serem 10-15% mais baratos conforme produção amadurece.
Futuro: Evolução Até 2070
Modernizações planejadas para CVN-78:
- Integração F-35C: Aumento gradual de 12-16 para 20+ F-35C por ala aérea
- MQ-25 Stingray: Drones tanqueiros autônomos para estender alcance aéreo em ~800 km
- Upgrades de guerra eletrônica: SLQ-32(V)4 constantemente atualizado
- Melhorias EMALS/AAG: Objetivo de confiabilidade equivalente a catapultas a vapor
- Armas energéticas (futuro): Railguns e lasers quando tecnologia amadurecer
Navios da classe em diferentes estágios:
Gerald R. Ford (CVN-78):
- Comissionamento: Julho 2017
- Status: Operacional completo
John F. Kennedy (CVN-79):
- Comissionamento previsto: Março 2027
- Status: Testes no mar desde janeiro 2026
Enterprise (CVN-80):
- Comissionamento previsto: 2027-2030
- Status: Em construção ativa
Doris Miller (CVN-81):
- Comissionamento previsto: 2032
- Status: Fase de preparação
William J. Clinton (CVN-82):
- Comissionamento previsto: 2036
- Status: Encomendado oficialmente
George W. Bush+ (CVN-83+):
- Comissionamento: Futuro indefinido
- Status: Planejamento inicial
Vida útil estimada: 50+ anos (2017-2070+)
Substituto planejado:
Não nomeado ainda. Provavelmente nova classe pós-2040 com:
- Reatores modulares menores e mais eficientes
- Automação radical (tripulação ~2.000?)
- Integração total com drones (UCAVs, UUVs)
- Armas energéticas como padrão
Até lá, a classe Ford será a espinha dorsal da Marinha dos EUA.

Perguntas Essenciais
1. O USS Gerald R. Ford ainda está em uso?
Sim, totalmente operacional desde 2017. Completou primeiro desdobramento em 2022-2024 e está atualmente em segundo desdobramento (outubro 2025) no Caribe.
2. Ele é o porta-aviões mais poderoso do mundo?
Tecnicamente, sim. Maior geração elétrica (600 MW), sistemas mais avançados (EMALS, radar DBR), autonomia ilimitada. Porém, classe Nimitz ainda é mais confiável operacionalmente devido a 50 anos de refinamento.
3. Quantos países operam esse modelo?
Apenas Estados Unidos. Exportação não planejada devido a tecnologia nuclear classificada e custo de US$ 13+ bilhões.
4. Ele já foi usado em guerra?
Não em combate direto. Forneceu cobertura aérea defensiva durante conflito Israel-Hamas (2023) e participa de operações contra narcotráfico (2025). Ala aérea não realizou strikes ofensivos ainda.
5. Existe versão de exportação?
Não. EUA não exporta porta-aviões nucleares. Aliados como Reino Unido e França desenvolvem próprios modelos convencionais (Queen Elizabeth, Charles de Gaulle).

Gigante Imperfeito, Mas Sem Rivais
O USS Gerald R. Ford é a materialização de uma aposta: inovação radical em escala titanesca.
Ele falhou? Em parte. EMALS teve problemas. Elevadores travaram. Custos escalaram 27%. Atrasos frustraram almirantes.
Mas também revolucionou. 90% de eficiência energética onde havia 5%. 600 MW de potência onde havia 200. Plataforma preparada para armas que ainda nem existem.
Historicamente, ele representa a transição da era do vapor para a era eletromagnética na guerra naval. Estrategicamente, garante que EUA mantenha supremacia nos oceanos pelos próximos 50 anos, mesmo com China construindo múltiplos porta-aviões.
Críticos têm razão ao apontar custos absurdos e bugs persistentes. Defensores têm razão ao destacar que nenhum rival oferece combinação equivalente de alcance, potência e versatilidade.
No fim, o Ford é menos sobre ser perfeito e mais sobre ser inevitável. A Marinha dos EUA não podia simplesmente continuar construindo Nimitz eternamente. Alguém precisava dar o salto tecnológico.
E por US$ 13,3 bilhões, eles deram.

Joseli Lourenço
Pesquisadora independente de história e tecnologia militar, dedicada a documentar os marcos e as inovações que transformaram os campos de batalha.
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